05/07/2012

Populações tradicionais e rurais avaliam riscos climáticos



Entre os questionamentos feitos aos resultados da Rio+ 20, um dos mais relevantes é o fato de o documento oficial – “O Futuro Que Queremos” – não levar muito em conta as contribuições dos modos de vida das comunidades e dos povos tradicionais como instrumento na luta contra as mudanças climáticas. O modo de vida dessas populações – de respeito ao meio ambiente e consumo sustentável dos recursos naturais – pouco influenciou o documento da ONU. Os líderes mundiais, principalmente das nações mais ricas, não abrem mão do crescimento contínuo.

Pequenos agricultores, pescadores e pescadoras artesanais, quilombolas e indígenas muitas vezes não participam das tomadas de decisões relativas ao meio ambiente, e no evento realizado no Rio de Janeiro não foi muito diferente. Mesmo sem muito espaço para incidir no debate, são estas comunidades que sofrem diariamente as consequências das mudanças do clima.

Pensando nisso, o Programa Direito a Terra, Água e Território (DTAT) viabilizou que cinco comunidades de diversas regiões do país e localizadas em quatro biomas diferentes avaliassem os riscos climáticos que vivem e também planejassem ações de mitigação e adaptação às mudanças do clima. A avaliação foi realizada no processo de adaptação da Metodologia de Avaliação de Riscos Climáticos (CLIDES), desenvolvida pelas organizações Suíças HEKS e Pão Para Todos. “O debate sobre a crise ambiental pode colocar outras vozes na cena pública, que são ocultadas ou consideradas atrasadas”, afirmou Cristiane Faustino, do Instituto Terramar, entidade que integra o Programa DTAT no Ceará.

Para ela, a chamada economia verde e o investimento tecnológico não são as únicas propostas que podem contribuir para reverter os grandes problemas ambientais enfrentados hoje. “Podemos aprender e encontrar soluções nas formas de vida destas comunidades”, lembrou. O modelo de desenvolvimento que expropria e expulsa as comunidades de seus territórios é o mesmo que compra ativos florestais, via mercado de carbono. “A contribuição das comunidades é, principalmente, na luta política por mudanças globais. O DTAT trabalha para que estas comunidades não estejam fora deste processo”, afirma Augusto Santiago, da CESE, que coordena o Programa.

Os encontros nas comunidades buscavam a adaptação da metodologia para as condições socioambientais brasileiras, levando em conta as diversidades dos biomas. “A metodologia nos ajuda a fazer uma releitura deste tema, que é amplo, relacionando-o com a vida cotidiana”, opinou a integrante do Terramar. Os encontros foram realizados com apoio da agência holandesa ICCO e da Embaixada Suíça no Brasil.

Os principais problemas percebidos pelas famílias estão relacionados à estiagem, ao aumento do calor, avanço do mar e mudanças nos ciclos de chuva. Os participantes também relataram a perda da diversidade de sementes. No semiárido, a intensificação da seca por períodos mais longos preocupa as comunidades. Já na Mata Atlântica e na Amazônia, a alternância de grandes secas com períodos de chuvas acima do normal estão entre as diferenças relatadas.
De acordo com Sebastião Silva Pereira, da comunidade quilombola Barro Vermelho, que faz parte do Fórum em Defesa do Baixo Parnaíba, foi muito importante trabalhar o tema dentro da comunidade. “É preciso mudar a forma de lidar com a terra e com a biodiversidade da nossa região para não degradar o meio ambiente. A metodologia facilitou trabalhar com o tema dentro da nossa realidade”.

O mais importante para Nair Martins Barbosa, da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, foi perceber que a comunidade conseguiu ligar os pontos entre causas e consequências, como enchente e seca, com os problemas globais. “O mais importante foi o despertar para estes riscos que estão tão próximos e eles descobrirem que podem ser agente de mudanças no âmbito local”.

Sobre o Programa DTAT
O Programa DTAT, composto de 13 organizações brasileiras que trabalham pelo acesso de povos tradicionais aos seus territórios ancestrais, promoveu encontros sobre o tema com o objetivo de que os conhecimentos das comunidades tenham incidência nas decisões tomadas em espaços públicos. Além disso, foram realizados eventos para explicar a metodologia, cuja aplicação também foi apoiada pelo programa em todas as comunidades. Todo o processo recebe apoio da ICCO, agência Holandesa de cooperação e da Embaixada Suíça no Brasil.

23/03/2012

Comunidades se prepararam para colaborar com o debate de mudanças climáticas

As diferenças no clima já são sentidas no dia-a-dia já de quem vive da terra, da pesca e mantém seu cotidiano ligado à natureza. Estas diferenças puderam ser discutidas e debatidas durante o Seminário Mudanças Climáticas e Desastres – analisando riscos e preparando alternativas locais realizado semana passada em Salvador.

O evento é uma ação do Programa Direito à Terra, Água e Território (DTAT) composto por 13 organizações brasileiras parceiras da organização holandesa ICCO. Organizado pela Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) e da Comissão Pró-Índio de São Paulo o evento é parte da agenda sobre mudanças climáticas do DTAT para 2012 que será realizada com o apoio da ICCO e também da Embaixada Suíça no Brasil e das agências suíças - Terre des Hommes Schweiz e Terre des Hommes Suisse.

O programa DTAT, formado por um coletivo de organizações brasileiras que possuem ações no âmbito do direito a terra, água e território, tem promovido desde 2008 discussões e formações nas áreas de comunicação para advocacy e lobby. “O tema das mudanças climáticas é estratégico, pois consideramos que os modos de vida de muitas comunidades tradicionais implicam em impactos positivos sobre sua mitigação. O tema deve ajudar a sensibilizar a sociedade brasileira para a defesa dos direitos destas comunidades, garantidos porém não efetivados”, disse Augusto Santiago, assessore de projetos da Coordenadoria Ecumênica de Serviços (CESE).
As percepções dos participantes que vieram dos estados do Ceará, Pernambuco, Maranhão, Bahia, São Paulo, Pará, Espírito Santo e Piauí, apontam para a mudança nos padrões locais do clima, especialmente das chuvas, sua quantidade e distribuição ao longo do ano. Os participantes também relataram a perda da diversidade de sementes.

No semiárido a intensificação da seca por períodos mais longos preocupa, já na Mata Atlântica e na Amazônia a alternância de grandes secas com períodos de chuvas acima do normal estão entre as diferenças relatas. A influência da monocultura e os problemas fundiários também são identificados como responsáveis pelo acirramento dos problemas.
Metodologia
Durante o evento, os convidados conheceram a metodologia Avaliação de Riscos Climáticos (CLID), aprimorada pelas organizações Suíças – HEKS E PÃO PARA TODOS, dividida em módulos que foram apresentados intercalados com exercícios práticos, apresentações e debates teóricos, sobre: Mudanças climáticas, políticas públicas nacionais, discussões sobre desastres e justiça climática e advocacy. “
Foi bem interessante refletir sobre o tema a partir de seus possíveis impactos sobre territórios de comunidades tradicionais e de agricultores, bem como sobre a vulnerabilidade dessas populações aos riscos do clima, para ao final sugerir ações para sua mitigação ou adaptação”, aponta Augusto.
A metodologia é voltada para uso em comunidades, especialmente as rurais e busca fornecer informações básicas sobre as mudanças no clima. Cada comunidade avalia os possíveis riscos dessas mudanças – por exemplo, ampliação da escassez de chuvas – sobre seus recursos naturais e de subsistência e por fim propõem alternativas para mitigação de suas emissões e adaptação aos efeitos incontroláveis. A metodologia será aplicada em São Paulo, Ceará, Pernambuco e Maranhão. Posteriormente, as entidades que compõem o DTAT irão debater e sistematizar esta aplicação.
Rio +20
Um dos temas debatidos durante o evento foi a Rio +20 e a importância de garantir a participação das organizações comunitárias nesse importante espaço de diálogo e tomada de decisão. O objetivo é incidir neste fórum e dar visibilidade as contradições da economia verde e do modelo atual de desenvolvimento brasileiro. É preciso ter em mente que as comunidades e os povos tradicionais contribuem para diminuir as contribuições do Brasil nas mudanças no clima.


03/03/2012

Representantes de cinco biomas se reúnem para discutir mudanças climáticas

Vindos das regiões Norte, Nordeste e Sudeste, indígenas, pescadores, quilombolas e agricultores familiares se reunirão em Salvador (BA) na próxima segunda-feira (5) para discutir o tema das mudanças climáticas. Durante o seminário Mudanças Climáticas e Desastres – analisando riscos e preparando alternativas locais integrantes de comunidades tradicionais e rurais, ligados a dezenove organizações brasileiras, terão a oportunidade de discutir metodologias para trabalhar o tema das mudanças climáticas e pensar formas de mitigar as consequências já sentidas no cotidiano das comunidades. Os participantes vivem em cinco biomas diferentes, a Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica e Zona Costeira.

O evento é uma ação do Programa Direito à Terra, Água e Território (DTAT), apoiado pela Agência Holandesa ICCO e ocorrerá até o dia 7 de março. A organização do seminário é da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) e da Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPI-SP).

Na programação está prevista uma atualização sobre a Rio + 20 e as negociações internacionais sobre o Clima, além da apresentação da metodologia de Avaliação de Riscos Climáticos (CLID). “Especificamente iremos apresentar uma metodologia, que propõem uma abordagem bastante detalhada para informar as comunidades sobre o tema, avaliar os riscos a que poderão ser submetidas e planejar alternativas de enfrentamento”, explica Augusto Santiago, da CESE.

A metodologia CLID foi desenvolvida por duas agências de Cooperação Suíças – Heks e Pão Para Todos, a partir de trabalhos de CARE e outros, já tendo sido aplicada em países de todo o mundo. Ela é dividida em sete módulos: avaliação do modelo de desenvolvimento predominante na região em que a comunidades está inserida, apresentação do tema; busca das percepções que cada comunidade tem acerca dele; os impactos das mudanças climáticas; os riscos inerentes a região e que poderão ou não ser potencializados pelo modelo predominante; planejamento de estratégias de enfrentamento; e estratégias de mudanças.

Após o seminário, a metodologia deverá ser aplicada em várias comunidades para subsidiar avaliações, que serão sistematizadas e apresentadas em um segundo seminário. “A idéia é trabalhar para que possamos desenvolvê-la de forma que o método não seja mais importante que o aprendizado e percepções que cada pessoa e comunidade tem do problema. Nosso foco está no processo e no aprendizado do grupo. Estamos adaptando essa metodologia a nossa realidade socioambiental”, finaliza Augusto.

Povo Guarani e mudanças climáticas
Durante o seminário, o professor Guarani Osmar Veríssimo irá apresentar a Cartilha Mudanças Climáticas e o Povo Guarani, elaborada por professores da aldeia Tenondé Porã, em Parelheiros, São Paulo. A cartilha, lançada em dezembro do ano passado, é resultado das capacitações anteriores realizadas nas oficinas sobre Mudanças Climáticas do Programa DTAT.

Para o professor estadual Osmar Veríssimo, que participou da elaboração da Cartilha, é importante que a comunidade reflita sobre as mudanças que estão ocorrendo na natureza. “Hoje existem mudanças é importante pra comunidade entender o porquê disso”, conta. O professor explica que o cotidiano Guarani é baseado na natureza e as mudanças são sentidas no dia-a-dia. “Agora temos o material para explicar para as crianças sobre o tema, com linguagem bem simples”, disse Osmar durante o lançamento.

A publicação foi escrita em Português e Guarani para aproximar o tema das comunidades indígenas. Este é o primeiro material feito pelos professores indígenas da Aldeia Tenonde Porã. A cartilha foi realizada pela Comissão Pró-Índio de São Paulo com apoio de DKA-Áustria, CAFOD, além do Programa DTAT/ICCO. A Cartilha pode ser acessada em: http://www.cpisp.org.br/pdf/Cartilha_MudancasClimaticas.pdf